Comunicação em Relacionamento Lésbico

Como aprender a falar e ouvir em um relacionamento entre mulheres. Estratégias de comunicação que funcionam de verdade.

schedule8 min de leitura

Comunicação em Relacionamento Lésbico

A gente cresce sendo ensinada a não ser problema. A ser agradável, a lidar com as coisas sozinha, a não fazer bafômetro. Daí entra uma mulher na sua vida e você descobre que conversar é muito mais difícil do que você pensava.

Por que mulheres não falam sobre problemas

Existe algo muito específico que acontece quando duas mulheres estão juntas. A gente foi socializada para cuidar, para ler nas entrelinhas, para não criar conflito. Então quando algo incomoda, a primeira reação não é falar. É fingir que está tudo bem e esperar que a outra pessoa simplesmente saiba que algo está errado.

Você já passou por isso? Fica brava mas responde "tudo bem" quando ela pergunta? Fica magoada porque ela "deveria saber" por que você está braçuda? Isso não é culpa sua. A gente foi treinada desde pequena a comunicar por telepátia, por olhar, por silêncio.

Tem mais. A gente tem medo de ser "demais". Demais exigente, demais dramática, demais carente. Se você pede conversa sobre algo que está incomodando, pode ser interpretado como você sendo complicada. Então você cala. Muitas de nós calamos tanto que esquecemos até do que queríamos falar.

Tem também aquela coisa de duas mulheres é igual a dois padrões diferentes de lidar com emoção. Uma pode ser mais explosiva, outra mais guardada. Uma pode querer resolver tudo na hora, outra precisa de tempo. E daí quando uma tenta conversar, a outra se sente atacada ou pressionada. Comunicação vira um campo minado.

E aí vem o pior: a culpa de não estar sabendo se comunicar. Como se houvesse uma forma certa de fazer isso que a gente deveria naturalmente saber. Como se não fossemos duas pessoas com histórias diferentes, traumas diferentes, formas diferentes de processar conflito.

O que acontece quando você não fala

Silêncio não é paz. Silêncio é um problema que está esperando para explodir.

Começa pequeno. Ela fez algo que te incomodou. Você não fala. Passa um dia. Dois. Você continua magoada mas agora não é só pela ação dela, é por ela ter feito aquilo e você ter fingido que não viu. O ressentimento cresce sozinho.

Depois essa mágoa não tratada vira motivo para ficar afastada. Você está na mesma cama mas está longe. Ela sente que algo está errado, mas não sabe o quê. Ela começa a agir defensiva. Talvez ache que você não a quer mais. Talvez fique magoada por você não estar confiando nela o suficiente para falar.

As coisas pequenas se transformam em grandes coisas quando a gente não fala sobre elas. Aquela vez que ela chegou tarde e não avisou vira "ela nunca me respeita o tempo". Aquele comentário que ela fez vira "ela nunca me validou de verdade". A história fica cada vez maior, cada vez mais pesada, cada vez mais intocável.

E depois tem aquelas conversas que você QUER ter mas está tão acumulado que quando finalmente tenta, sai tudo de uma vez, ou sai mágoa demais, ou sai agressivo demais. E aí ela se fecha, você se sente culpada por ter explodido, e tudo piora.

Silêncio também pode se tornar controle disfarçado. Quando você não fala o que quer, pode começar a punir em outras formas. Menos contato, menos carinho, comentários passivo-agressivos. Aí o relacionamento fica tóxico não por falta de comunicação, mas por comunicação errada. Comunicação que machuca sem nomear o que realmente dói.

Como começar uma conversa difícil

Conversa difícil precisa de preparação. Não é drama, é respeito com você mesma e com ela.

Primeiro: escolha o momento. Não comece uma conversa séria quando uma de vocês está saindo para o trabalho, quando está com fome, ou quando vocês duas estão já estressadas com outras coisas. Conversa importante precisa de espaço mental. Procure um momento em que vocês duas possam estar presentes. Comunique a intenção: "Preciso falar de algo que está me incomodando. Você tem tempo agora?". Isso dá para ela chance de se preparar também.

Segundo: organize o que você quer dizer. Você não precisa decorar um discurso, mas você precisa saber qual é o ponto principal. Qual é o comportamento que te incomoda, como aquilo te faz sentir, e o que você precisa mudar. Algo assim: "Quando você faz X, eu sinto Y porque eu preciso/acredito em Z". Específico. Não generalizações.

Terceiro: deixa a culpa de lado. Se você começar a conversa já pedindo desculpas pela conversa, você está comunicando que você não merece ser ouvida. Você merece. Falar sobre o que te dói não é um crime. Não é ser chata. É estar em um relacionamento.

Comece assim: "Algo tem me incomodado e eu quero conversar com você sobre isso porque você é importante para mim e o nosso relacionamento é importante para mim." Pronto. Você já deixou claro que não é ataque, é cuidado.

Frases que funcionam de verdade:

"Quando acontece X, eu me sinto Y porque..." - isso separa o comportamento do caráter da pessoa.

"Eu preciso que você saiba que..." - isso coloca você no lugar de alguém com necessidades válidas.

"Como é que você vê isso?" ou "Como você se sente em relação a isso?" - isso abre espaço para ela participar da conversa, não é um julgamento.

"Eu não consigo ler a mente. Você consegue me falar o que você está sentindo?" - isso é direto mas carinhoso.

E depois deixa ela responder. De verdade. Não é você falar e ela ficar em silêncio enquanto você fica esperando ela concordar. Conversa é duas pessoas.

Ouvindo quando é difícil

A parte mais difícil de uma conversa sobre problema é ouvir sem já estar montando sua defesa.

Quando ela começa a falar sobre algo que ela está sentindo sobre você, ou sobre algo que você fez, é muito natural a gente entrar em defesa. A gente quer explicar por que aquilo não é tão ruim, por que a gente tinha razão, por que ela está entendendo errado. Resista a esse impulso.

Quando ela está falando, você está ouvindo. Só isso. Você não precisa concordar. Você não precisa achar justo. Você só precisa deixar ela falar.

Valide sem concordar: "Entendo que aquilo te magoou" não é o mesmo que "você está certa e eu estava errada". É reconhecer que o sentimento dela é real. Porque é. Mesmo que você tenha tido boas intenções, o impacto foi aquele.

Faça perguntas que mostram que você está tentando entender: "O que você sentiu quando aquilo aconteceu?" ou "Como é que você quer que eu aja nessa situação?" ou "O que você precisa de mim?". Perguntas que mostram que você está preocupada em realmente entender, não só em provar que você está certa.

Se você está muito defensiva, tudo bem dizer: "Eu preciso de um minuto para processar isso. Você importa pra mim e eu quero responder bem, mas agora eu não consigo." Depois você volta. Não é fuga, é cuidado.

E tem aquele momento em que você simplesmente tem que reconhecer: "Você tem razão" ou "Eu fiz errado" ou "Eu deveria ter feito diferente". Três frases que todo mundo deveria aprender a dizer. Não é derrota. É amor. É estar disposta a mudar por alguém que você ama.

Conversas que você precisa ter

Tem tópicos que parecem chatos demais para conversar, mas são exatamente os tópicos que podem explodir tudo se você não falar.

Dinheiro. Qual é o plano financeiro de vocês duas? Vocês vão colocar tudo na mesma conta ou cada uma fica com sua? Como vocês lidam com diferença de renda? Vocês planejam o futuro financeiro junto? A maioria das separações não é por falta de amor, é por problema de dinheiro. Conversa agora.

Futuro e compromisso. Para onde vocês estão indo? Vocês querem casar? Adotar filho? Qual é o plano? Porque estar com alguém e descobrir um ano depois que ela não quer o mesmo que você é deprimente. Fala isso cedo.

Sexo e intimidade. O que cada uma quer? O que não funciona? Como é que vocês lidam com uma situação em que uma quer mais sexo que a outra? Isso é tão importante quanto estar apaixonada. Porque a falta de comunicação nessa área cria um distanciamento que cresce todos os dias.

Família e coming out. Qual é a posição de cada uma em relação à família? Vocês vão contar? Quando? Como vocês vão lidar se os pais de uma não aceitarem? Porque isso afeta o relacionamento. Afeta muito.

Essas conversas parecem frias demais, muito planejamento, muito calculista. Mas sabe o que é frio mesmo? Descobrir tarde demais que vocês duas queriam coisas completamente diferentes. Quer saber o que é quentinho? Estar com alguém e saber que vocês conversaram, vocês planejaram, vocês estão alinhadas.

Conversa é risco. É você colocar algo que você sente ou precisa na mesa e esperar que a outra pessoa não use contra você. Mas é também a única forma de estar de verdade com alguém. Silêncio é fácil. Conversa é valente.


Para Saber Mais

Relacionamento Lésbico: Fundamentos: Entenda os pilares de um relacionamento saudável

Término Entre Mulheres: Como terminar com honestidade quando as coisas não funcionam

Primeiro Encontro Entre Mulheres: Estratégias para começar bem