A Vizinha de Porta
O barulho do salto alto no corredor sempre denunciava quando ela chegava. Mas aquela noite, a chave caiu.
A Vizinha de Porta

Eu conhecia a rotina dela pelo som, uma sinfonia urbana que marcava o fim dos meus dias e o início das minhas fantasias. Às 19h15, o zumbido mecânico do elevador parava no 6º andar. Às 19h17, o tec-tec-tec rítmico e decidido dos saltos agulha ecoava contra o piso de madeira antigo do corredor, cada passo parecendo uma contagem regressiva para o meu coração acelerar. Às 19h18, o barulho metálico da chave girando na porta 602 encerrava o ritual.
Eu morava no 601 há dois anos, uma parede fina separando meu mundo do dela. A gente nunca tinha trocado mais que um "boa noite" apressado e polido no elevador ou na portaria. Mas eu sabia coisas sobre ela. Sabia que ela preferia vinho tinto porque ouvia o tilintar das taças nas noites de sexta. Sabia que ela ouvia Chet Baker quando chovia. E sabia, com uma certeza visceral, que ela usava perfume de sândalo. O cheiro, amadeirado e quente, ficava suspenso no ar do corredor por minutos depois que ela passava, um rastro invisível que eu inspirava profundamente antes de entrar no meu próprio apartamento vazio.
Naquela terça-feira, no entanto, o ritmo do universo mudou.
Ouvi o elevador. Ouvi os passos. Mas em vez do girar suave da chave, ouvi um baque metálico seco no chão, seguido pelo som abafado de compras caindo e um suspiro alto, gutural, de pura frustração.
Meu corpo se moveu antes que eu pudesse racionalizar. Abri a porta.
O corredor estava na penumbra habitual. Ela estava agachada, numa posição que fez minha boca secar instantaneamente. A saia lápis preta subia levemente, revelando a curva torneada das panturrilhas envoltas em meia-calça fina. Ela tentava recolher a chave, uma sacola de compras de papel rasgada e três laranjas que rolavam desobedientes pelo tapete encardido do prédio.
Ela levantou os olhos quando a luz do meu apartamento invadiu o corredor. Estava descabelada, com alguns fios soltos do coque impecável caindo sobre o rosto. O batom vermelho, antes perfeito, estava levemente borrado no canto da boca, como se ela o tivesse mordido em ansiedade. Parecia exausta, mas naquela desordem, estava mais bonita do que nunca.
— Ajuda? — ofereci, minha voz saindo mais baixa do que pretendi.
— Por favor — a voz dela era rouca, cansada. Gostei de imediato. Uma vibração que desceu pela minha espinha.
Ajoelhei-me ao lado dela. O cheiro de sândalo me atingiu em cheio, misturado agora com algo mais... humano. Suor leve, talvez. Estresse. Vida.
Fui pegar uma das laranjas que tinha rolado para perto da porta dela. Nossas mãos se esticaram ao mesmo tempo. A ponta dos meus dedos roçou na pele da mão dela. Foi um choque estático, mas também térmico. A pele dela estava febril, quente. Ela não recuou. Ficamos ali, agachadas no corredor, segurando a mesma laranja, olhando uma nos olhos da outra.
Os olhos dela eram escuros, profundos, e naquele momento, não havia neles a polidez da vizinhança. Havia curiosidade. E fome.
— Obrigada — ela disse, quebrando o feitiço, mas sem desviar o olhar. Levantou-se devagar, alisando a saia com as mãos espalmadas, desenhando o quadril que eu já tinha imaginado em tantas noites insones. — Dia difícil.
— Imagino. — Fiquei de pé também, sentindo-me subitamente gigante e ao mesmo tempo pequena perto da presença dela. — Quer um café? Ou um vinho? Acho que combina mais com o estado da sacola rasgada.
Eu não sou ousada. Juro. Sou a pessoa que pede desculpas quando esbarram em mim. Mas o perfume, a proximidade, a tensão acumulada de dois anos... aquilo me embriagou.
Ela sorriu. Não o sorriso educado de elevador. Um sorriso de canto, lento, perigoso.
— Vinho. Definitivamente vinho.
Entrou no meu apartamento como se já conhecesse o caminho, como se tivesse ensaiado aquela cena tanto quanto eu. Deixou as compras (agora salvas) num canto e tirou os sapatos logo na entrada, soltando um gemido baixo de alívio ao sentir o pé descalço no chão frio. Aquele som... aquele pequeno som de prazer desarmou qualquer defesa que eu ainda pudesse ter.
Servi duas taças de um Cabernet que guardava para ocasiões especiais. Ela sentou no sofá, cruzando as pernas com uma elegância natural. O tecido da meia-calça fez aquele som suave de atrito, um swish que fez meu estômago contrair.
Sentei na poltrona à frente, mas ela bateu levemente no lugar vazio ao lado dela no sofá. Um convite mudo. Obedeci.
— Você sempre ouve quando eu chego? — ela perguntou, girando a taça pela haste, observando o líquido vermelho dançar.
Senti meu rosto esquentar. Fui pega. — As paredes são finas. Às vezes... é inevitável.
Ela virou o rosto para mim. Estávamos perto. Perto demais. O suficiente para eu ver os pequenos pontos dourados na íris escura dela.
— Eu também ouço você — ela disse, a voz baixando uma oitava, tornando-se um segredo. — Ouço quando você coloca música jazz às sextas. Ouço quando você anda descalça pela sala. Ouço quando você toma banho de manhã... o som da água caindo...
O ar entre nós ficou denso, pesado, carregado de eletricidade estática. Não era mais sobre vizinhança. Não era sobre gentileza. Era sobre dois anos de voyeurismo auditivo, de desejo construído no silêncio.
— E o que mais você ouve? — provoquei, a ousadia voltando, alimentada pelo vinho e pelo olhar dela que agora caía sobre minha boca.
Ela colocou a taça na mesa de centro, devagar. Virou o corpo totalmente para mim.
— Ouço sua respiração mudar quando a gente se cruza no elevador, mesmo que a gente não fale nada. Ouço seu coração acelerar. Como agora.
Ela estendeu a mão e tocou meu pescoço, bem em cima da pulsação. O toque dela era firme, possessivo. Minha respiração falhou.
— Elena — eu disse, testando o nome que eu tinha lido nas correspondências dela tantas vezes.
— Shh — ela sussurrou, inclinando-se.
O beijo não foi tímido. Não houve hesitação. Assim que os lábios dela tocaram os meus, foi como se uma represa se rompesse. Ela me beijou com fome, com uma urgência desesperada. A língua dela invadiu minha boca, quente, exploradora, com gosto de vinho e promessas cumpridas.
Minhas mãos foram para o cabelo dela, desmanchando o coque frouxo, sentindo os fios caírem sobre meus dedos. Ela gemeu contra minha boca e me puxou para cima dela. Caí desajeitada, rindo de nervoso, mas ela não riu. Ela me segurou com força, as unhas cravando levemente na minha cintura através da blusa.
— Você não tem ideia — ela murmurou entre beijos, descendo para o meu pescoço — de quanto tempo eu quis saber se você tinha o gosto que eu imaginava.
— E tenho? — perguntei, a cabeça caindo para trás, dando acesso livre à pele sensível da minha garganta.
Ela mordiscou o lóbulo da minha orelha, e um arrepio violento percorreu meu corpo inteiro, concentrando-se no baixo ventre.
— Melhor. — A mão dela deslizou para baixo, ousada, parando na minha coxa, apertando. — Muito melhor.
Senti o tecido frio da blusa de seda dela contra minha pele e o calor absurdo que emanava do corpo dela. Estávamos ali, na minha sala, com a porta destrancada e laranjas rolando no corredor lá fora (provavelmente eu tinha esquecido de fechar a porta, ou a mente criava cenários), mas o mundo lá fora tinha deixado de existir.
Ela me deitou no sofá. O peso do corpo dela sobre o meu era a âncora que eu precisava. Ela beijou meu queixo, meu pescoço, o vale entre meus seios, desabotoando minha camisa com uma destreza que me fez ofegar.
— Vizinha... — ela sussurrou, os olhos brilhando com malícia e desejo — A gente vai fazer tanto barulho hoje que o prédio inteiro vai saber.
— Deixa eles saberem — respondi, puxando-a para mim novamente, precisando da boca dela na minha.
E fizemos. Fizemos barulho. Fizemos amor com a urgência de quem esperou dois anos e com a calma de quem sabe que tem a noite toda. E na manhã seguinte, quando ouvi o barulho do chuveiro dela através da parede, sorri. Porque agora eu sabia exatamente como era tê-la molhada nos meus braços.
Para Saber Mais
Primeiro Encontro: A arte da primeira vez
Tensão Sexual: O prazer da antecipação
Atração Entre Mulheres: Como identificar o desejo