Chuva de Verão

O temporal lá fora transformou o carro em um casulo. Isoladas do mundo, só restou o som da água e o calor da pele.

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Chuva de Verão

Ilustração

A chuva começou grossa, violenta, sem aviso. Primeiro algumas gotas pesadas estalando no capô, depois um dilúvio que batia no teto do carro como se fossem pedras tentando entrar. O limpador de para-brisa, no seu ritmo frenético, não dava conta de vencer a cortina d’água. Em segundos, o mundo lá fora, a estrada de terra, as árvores, o céu, tudo virou um borrão cinza e úmido.

— Melhor encostar — Marina disse, a voz tensa, franzindo a testa e apertando o volante com os nós dos dedos brancos. — Não tô vendo um palmo na frente.

Ela guiou o carro devagar para o acostamento gramado, manobrando até ficar sob a copa de uma árvore imensa, cujos galhos grossos amorteciam um pouco o impacto direto da água. Desligou o motor. O farol apagou, e a escuridão da tarde tempestuosa nos engoliu. O silêncio mecânico foi instantaneamente substituído pelo rugido constante e envolvente da tempestade.

Ficamos ali, presas numa bolha de vidro e metal, suspensas no tempo. Os vidros começaram a embaçar quase imediatamente com o calor da nossa respiração, criando uma névoa branca que nos isolava ainda mais do universo.

— Vai demorar pra passar — comentei, observando uma gota solitária escorrer pelo vidro lateral, traçando um caminho sinuoso na condensação.

— Não estou com pressa. — A voz dela saiu diferente. Mais baixa. — Você está?

Olhei para ela. A luz fraca do painel, que ainda brilhava residualmente, iluminava o perfil dela. Marina tinha aquele cheiro de chuva antes mesmo da chuva cair. Um cheiro de terra molhada, de ozônio, de eletricidade estática prestes a estourar. O cabelo dela, meio úmido de quando corremos para o carro, colava na nuca de um jeito que me dava vontade de morder.

O espaço era pequeno. O console central do carro parecia um abismo entre nós, com a alavanca de câmbio e o freio de mão criando uma barreira física, mas ao mesmo tempo, a estreiteza nos forçava a uma intimidade estranha. Nossos joelhos se tocavam a cada movimento.

Ela esticou o braço para pegar algo no banco de trás, talvez uma garrafa de água, e a mão dela roçou no meu seio. Foi acidental. Eu sabia que era. Mas ela parou. Congelou. Não retirou a mão. O dorso dos dedos dela ficou ali, pressionando levemente a lateral do meu peito, sentindo a textura do tecido e o calor da pele por baixo.

O som da chuva isolava tudo. Não havia estrada, não havia compromissos, não havia ninguém num raio de quilômetros. Só nós duas naquele casulo úmido e vibrante.

— Tá frio — ela sussurrou, a voz rouca, virando o rosto para me olhar. Os olhos dela estavam escuros, dilatados.

— Tá quente aqui — respondi, cobrindo a mão dela com a minha e pressionando-a deliberadamente contra meu coração. Eu podia sentir ele batendo rápido, denunciando tudo o que eu tentava esconder. — Muito quente.

Ela soltou o ar devagar. Virou o corpo no banco do motorista, o cinto de segurança estalando alto ao ser solto e recolhido.

— Vem cá.

Não foi um pedido. Foi um convite irrevogável.

Pular o console foi desengonçado. Rimos nervosamente quando meu pé prendeu no porta-copos e meu cotovelo bateu na buzina, um som curto que morreu na chuva. Mas quando finalmente sentei no colo dela, de frente, pernas uma de cada lado do quadril dela, o riso morreu na garganta.

O espaço confinado nos obrigava a ficar coladas. Testa com testa. Nariz com nariz. Eu sentia a respiração dela misturada com a minha, o mesmo ar sendo compartilhado naquele ecossistema fechado. Sentia o calor das coxas dela sob as minhas nádegas, o tecido do jeans criando um atrito delicioso.

Ela deslizou as mãos por baixo da minha camiseta, as pontas dos dedos frias contra a minha pele fervendo nas costas, subindo pela coluna vertebral, mapeando cada vértebra. Arrepiei inteira, um choque térmico que me fez arquear as costas instintivamente contra o toque dela.

— O vidro tá todo embaçado — ela notou, sorrindo contra minha boca, os lábios roçando nos meus a cada sílaba. — Ninguém vai ver nada.

— Só a gente — respondi, minha voz falhando, antes de morder o lábio inferior dela, puxando-o devagar.

— É o suficiente — ela murmurou, e me beijou.

O beijo teve gosto de liberdade e perigo. Aquela urgência de quem está fazendo algo meio errado, meio proibido, num lugar onde não deveria. O som da chuva lá fora parecia aplaudir, abafando nossos gemidos, criando um ritmo caótico e primitivo para os movimentos dos nossos corpos naquele espaço apertado. O cheiro de chuva se misturou com o meu cheiro e o dela, criando uma atmosfera inebriante.

A mão dela desceu da minha coluna para o cós da minha calça, desabotoando meu jeans com uma destreza que me fez duvidar se era a primeira vez que ela fazia aquilo num carro. Quando os dedos dela deslizaram para dentro, quentes e ávidos, joguei a cabeça para trás, batendo levemente no teto do carro, e deixei o som da tempestade levar meu grito.

Lá fora, o mundo desabava em água, lavando a terra. Ali dentro, eu me afogava nela, e não queria ser salva.


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