Horas Extras
O escritório estava vazio, exceto pelo brilho azul do monitor dela e a tensão que ocupava a sala de reuniões.
Horas Extras

O relatório trimestral precisava ser entregue às 8h da manhã. O prazo era inegociável, assim como tudo o que envolvia Helena, a diretora executiva da agência. Olhei para o relógio no canto da tela: 22h30. Eu ainda estava na página 15, e meus olhos ardiam com o brilho artificial da planilha de Excel.
O 24º andar estava deserto, mergulhado num silêncio abafado pelo carpete espesso. As luzes principais já tinham se apagado, restando apenas a iluminação de emergência e o brilho solitário da minha baia e da sala de vidro no final do corredor. A sala dela.
Eu tentava focar nos números, mas minha mente, traidora, viajava repetidamente para a figura que eu via através das persianas semiabertas da sala de vidro. Helena tinha tirado o blazer preto impecável que usava como armadura durante o dia. Estava agora com uma camisa social branca de seda, os primeiros botões abertos revelando a linha elegante do pescoço, as mangas dobradas com precisão milimétrica até o cotovelo. Ela andava de um lado para o outro falando ao telefone, gesticulando com aquela autoridade natural que fazia metade do escritório tremer e a outra metade se apaixonar.
Ela era intimidante. Inteligente demais, exigente demais, bonita de um jeito clássico e frio. Eu passava o dia tentando manter a postura profissional, tentando não gaguejar nas reuniões quando o olhar analítico dela recaía sobre mim. Mas à noite, sozinha no escritório vazio, a fantasia tomava conta.
Ouvi a porta de vidro abrir lá no fundo. O som dos passos dela no corredor, firmes e ritmados, ecoou no silêncio. Clack, clack, clack. Congelei sobre o teclado, o coração disparando contra as costelas.
— Ainda aqui, Clara? — a voz dela soou atrás de mim, rouca de cansaço, mas ainda assim, inconfundivelmente no comando.
Virei a cadeira giratória devagar. Ela estava parada a alguns passos, segurando uma pasta. Parecia exausta, mas isso só a humanizava, deixava-a mais... acessível. Havia uma mecha de cabelo solta do coque perfeito, caindo sobre a testa. Eu tive uma vontade insana, quase dolorosa, de levantar a mão e colocar aquela mecha atrás da orelha dela.
— O relatório trimestral... — apontei para a tela, minha voz saindo mais fraca do que eu gostaria. — Queria deixar perfeito. Sei o quanto é importante para a reunião de amanhã.
Ela se aproximou. Devagar, como um predador que não tem pressa porque sabe que a presa não tem para onde correr. Apoiou uma mão na minha mesa, bem ao lado do meu mouse, e a outra no encosto da minha cadeira, me prendendo naquele espaço exíguo. O cheiro dela me envolveu imediatamente: algo limpo, caro, com notas de cítricos e madeira.
— Você se esforça demais — ela murmurou, os olhos varrendo a tela do computador e depois descendo para o meu rosto. — Ninguém mais ficou. Só você.
Ela estava perigosamente perto. Eu podia ver os detalhes dourados na íris castanho-clara dos olhos dela, as pequenas linhas de expressão ao redor da boca que só apareciam de perto. Minha respiração travou na garganta.
— Alguém precisa fazer o trabalho sujo — brinquei, tentando dissipar a tensão elétrica que fazia os pelos do meu braço arrepiarem.
— É? — ela inclinou a cabeça levemente para o lado, um movimento quase imperceptível. — E você gosta? Do trabalho sujo?
A pergunta pairou no ar, carregada de um duplo sentido que não podia ser ignorado. Eu sabia. Ela sabia. O jogo tinha mudado.
O silêncio que se instalou foi ensurdecedor. O zumbido do ar condicionado parecia um rugido. Helena não recuou. Pelo contrário, ela se inclinou mais um centímetro. Seus olhos caíram para a minha boca e ficaram ali, demorando-se.
— Helena... — o nome dela saiu da minha boca como um aviso e um convite, desprovido do "Senhora" ou "Diretora" que eu usava há meses.
Ela sorriu. Foi a coisa mais devastadora que vi na vida. Um sorriso lento, que começou nos olhos e desceu para os lábios.
— Ninguém vai subir aqui a essa hora, Clara. O segurança só passa à meia-noite para a ronda.
Ela girou minha cadeira devagar até eu ficar totalmente de frente para ela. Minhas pernas, abertas, roçaram no tecido fino da calça de alfaiataria dela. Ela não se afastou. Encaixou-se ali, no meio das minhas pernas, e levou as mãos aos braços da cadeira, me encurralando definitivamente.
— O que você quer fazer sobre isso? — ela sussurrou, a voz baixa vibrando direto no meu centro.
Não esperei pela permissão que eu sabia que já tinha. Puxei-a pela gola da camisa de seda, trazendo-a para mim.
O beijo foi faminto, desesperado. Uma disputa de poder onde ninguém queria ganhar, só consumir. Ela tinha gosto de café forte e hortelã. As mãos dela, firmes, autoritárias, saíram dos braços da cadeira e foram para o meu cabelo, puxando minha cabeça para trás para aprofundar o contato, expondo meu pescoço.
Eu gemi baixo quando ela mordeu meu lábio inferior, e o som, indecente e alto, ecoou no escritório vazio.
— Shh... — ela riu contra minha boca, o hálito quente batendo no meu rosto. — Paredes de vidro, lembra?
— Ninguém vai subir... — repeti as palavras dela como um mantra, minhas mãos descendo pelas costas dela, sentindo a curvatura da coluna, desfazendo a postura rígida da chefe intocável.
Ela me puxou da cadeira, me levantando com uma força surpreendente, e me empurrou contra a mesa. Papéis voaram. Canetas rolaram para o chão num baque surdo. O monitor balançou. Nada importava.
— Esquece o relatório — ela ordenou, a voz rouca contra o meu ouvido, enquanto a mão dela subia pela minha coxa. — Você tem tarefas mais urgentes agora.
E pela primeira vez desde que fui contratada, obedeci com absoluto prazer.
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